Idealizada pelo artista Pablo Lobato, a primeira Escultura Comunitária, intitulada Bárbara de Cocais, ocorre entre as cidades de Barão de Cocais e Santa Bárbara, em Minas Gerais.
Concebida como uma escultura comunitária, Bárbara de Cocais é uma obra de longa duração que tem a formação humana como questão primordial. O cinema é seu meio de encanto para mobilizar aprendizagens e compartilhar saberes. A arte do cuidar é seu propósito.
As interações coletivas da escultura comunitária podem acontecer à sombra larga de uma árvore, à luz da lua em bancos de praça, à iluminação fria do auditório, à borda da fogueira enquanto se relata um sonho, à projeção luminosa em uma sala de cinema.
Bárbara de Cocais foi idealizada para vir ao mundo em 2024. Ela se confunde com o que pode se tornar. Evocá-la já é o começo da escultura, território de encontros, obra de uma comunidade cuidadora.
Cuidar, cultivar e compartilhar são condições para se esculpir comunitariamente. O manejo dos ciclos vivos é também uma modalidade escultórica: lavrar, semear, plantar e colher. Na agricultura, os gestos humanos e a fertilidade da terra se pedem e se dão mutuamente.
Santa Bárbara e Barão de Cocais foram terras do Morro Grande, território cuja ossatura foi cortada pela mineração. As marcas da extração e a comunidade de seres viventes se entrelaçam e desafiam o esquecimento a reimaginar o desenho da paisagem.
Bárbara de Cocais, subtraída da Santa e do Barão, é uma cruza de saberes, ela transforma o desamparo individual em bordas cooperativas. Sua escultura dispõe sobre uma mesa comum o compromisso ético da partilha: plantio, eclosão e abundância.
Plantar nos sulcos do extrativismo é um modo de afirmar e dar forma ao presente que avança, ao
futuro que se arruma pela mão coletiva. Bárbara de Cocais é esculpida nas rupturas. Seu cultivo se
revela na vida compartilhada, é uma resistência fértil para além do solo.
Até assumir sua feição atual, Bárbara de Cocais caminhou por entre morros, rios, matas, bichos e gentes de Boa Vista, Florália, Barro Branco, Cocais, Córrego da Onça, São Gonçalo do Rio Acima, Barra Feliz, Tambor, Bananal, Bateias, Paiol e André do Mato Dentro.
Bárbara de Cocais assume seu horizonte coletivo na aliança entre arte e formação humana. As luzes do cinema se reconhecem nas pedagogias de cura e, aliadas às mumunhas de quintal, se tornam espaços de convívio.
Bárbara de Cocais tece uma escuta ativa às singularidades locais. Ela trama gestos que, num alinhavo cuidador, se aproximam com curiosidade da primeira infância. A vida, em sua qualidade regenerante, é o primeiro e último material desta escultura comunitária.
Escritos para a Escultura Comunitária #01,
por Clarissa Diniz, Julia Panadés e Pablo Lobato.
Junho de 2024